Comentários

Por A. Soares

I

Pesporrentemente, Sua Excelência diz:

- A instabilidade é o futuro!

E, ufano do seu logro mental, empina o perfil de lagarto velho, alarga as mãos aduncas pelo sofá, tremelica a perninha traçada, onde se exibe meinha de seda e sapatinho de verniz.

É uma das grandes sumidades, das muitas que, volta e não volta, aparecem na televisão, tecendo finas considerações sócio-político-económicas, a alto preço.

Eu cá não tenho amizades que me franqueiem os cofres do Estado, nem sou vidente nem sábio e vivo com imensas dúvidas e poucas certezas.

Das últimas destaco esta: os homens devem dar um sentido à vida, conhecendo-a, fruindo-a, melhorando-a.

Não me proponham, então, um tropel de doidos a parte nenhuma, pois sei que o mundo produz cento e dez por cento das suas necessidades e muito mais produzirá, se formos pela razão e não pelo lucro.

Portanto, acabar com a fome, a doença, o atraso é apenas uma questão de querer. É que o problema dos nossos dias não é a competitividade ou a produtividade, mas a distribuição da riqueza.

II

Do cimo da sua notável estatura intelectual, bem conhecida de todos, Bush ameaça:

- Os pacifistas estão a violar o direito à guerra e podem ser levados a tribunal por crimes contra a humanidade!

Quem lhe bichana estas coisas ao ouvido é com certeza o mesmo que lhe arranjou um caniche inglês e um lulu espanhol como cães de cego.

III

Dois intelectuais de pacotilha: um grande, talhado a machado, bruto, o outro anafadinho, todo falinhas mansas, social.

De guerra falaram, grosseria de aquele, boa educação de este.

- A escolha é uma só: democracia ou ditadura - rematou o furioso.

Como se a democracia se impusesse à bomba e o petróleo nem sequer existisse!

O pequenote pestanejou, sorriu atrapalhadamente, embatucou.

Bush resplandecia, nimbado de democrata, sem melena caída nem bigode encolhido.

Heil Bush!

IV

Ainda a guerra vai no adro e já os abutres fazem cálculos: os poços de petróleo para mim, refinarias e oleodutos para ti, portos para aquele, obras e construções para o outro, sendo o mim, o ti, o aquele e o outro, obviamente, americanos.

O caniche inglês, vendo a posta fugir-lhe, ladra, aflito: - Então e eu? E eu?

E, em desespero de causa, vira-se para o papel relevante das Nações Unidas, no pagamento das despesas, por certo.

Ao dr. Burroso, pelos vistos, não caberá sequer a venda dos tremoços.

Que sabujice inútil!

V

Se o bicho é cherne, o cherne é feio: balofo, de um branco enfermiço. os olhos desavindos a fugirem-lhe pelos cantos.

Peixe de águas turvas, salgado à imperialista, segundo receita de Mao e Pol Pot.

Nem para caldeirada!

VI

A diferença é sintáctica:

Pol Pot contribuiu com milhões para as Estatísticas Modernas, Pol Portas recebeu milhões das Estatísticas Modernas.

VII

Portugal é o único país do mundo onde um aspirante a político se tirocina primeiro em futebol. Futebol de bancada, é bom de ver, que essa coisa de descer ao campo faz suar as estopinhas e nada, mesmo nada, lhes causa tanta náusea, como o cheiro a suor, particularmente o do honesto trabalho. Esforço há, sem qualquer dúvida, porque não é despiciendo aquele que põem em aguentar de cu firme, nos reservados do estádio, as muitas horas de espera, as muitas horas de prélio, as muitas horas de debate acirrado com contertúlios. Ajunte-se, ainda, a violência sofrida por estas almas de eleição, que, faça sol ou faça chuva, têm de enrolar-se num cachecol do clube, destacar-se pela cartola de riscas vistosas e serrazinar uma cegarrega espalhafatosa nos momentos cruciais e cruciantes do espectáculo. E depois os gestos ao alto, os brados uivantes, as intensas emoções que é preciso alardear, não pensem os outros que ele está ali só para ser visto, obrigado a um frete monumental.

Portanto, o preço a pagar não é pequeno, não senhor, para não falar do tempo roubado a lazeres menos extenuantes, desprendidas cavaqueiras, convívios familiares. Mas não só. A repetição exaustiva deste exercício que, ainda por cima, se repercute pela semana inteira, em comentários, rouquidões e, até, catarros, tem consequências múltiplas nos estudos que ficam por fazer, nos compromissos que ficam por cumprir, nas responsabilidades que ficam por tomar. E os horizontes estreitam-se, a cultura definha, a sensibilidade anemiza-se, o ridículo acontece. Não é, pois, de estranhar que, cedo ou tarde, venha a surgir a calinada estrídula, capaz de fazer rir um morto, como a afirmação séria de que muito aprecia a prosa de Camões ou os concertos para violino de Chopin. São estes os percalços a que se sujeita um pobre de espírito.

Há, contudo, compensações, num país como o nosso, que parece querer rir da sua própria miséria.

A televisão, essa, talvez porque afine por diapasões idênticos, chama a si, de imediato, estes bufões engravatados, num afã de dar ao povo o que melhor o confunda e estupidifique. Vai daí, promove mesas redondas, bicudas e quadradas, onde os trôpegos mentais, sempre os mesmos, dissertam em modos ralaços ou frenéticos, conforme os feitios, primeiro, os casos desportivos (entenda-se, futebolísticos) da semana, depois, os acontecimentos sociais mais relevantes, finalmente, os graves e instantes problemas do país, numa perspectiva de curto, médio e longo prazo. E o teorista futebolizador é doravante uma personalidade, um oráculo de destinos, uma certeza absoluta entre as promessas de um país que se afunda, apesar de ter mais génios por metro quadrado que qualquer outro.

Mas estamos no bom caminho, como se afirma reiteradamente.

Tanto assim que já não somos os últimos da União Europeia, pois alguns dos que entraram agora parecem estar em piores condições.

Daí o defendermos o seu alargamento sem limites, para que haja sempre alguém atrás de nós, com as calças na mão ou o rabo de fora.

VIII

Noutros tempos, quando alguém se referia a um indivíduo de fraca figura, irritantemente pequeno, mas metediço, incapaz, no entanto, de levar no focinho uma lambada a sério, era inevitável a utilização do termo meia-foda. Tais criaturas, porém, por razões de sobrevivência, desenvolviam uma esperteza especial, que não era inteligência, mas permitia-lhes, como acontece com os frangos raquíticos, chegar, por entre as pernas dos outros, ao grãozinho ou ao verme que todos cobiçavam.

Na escola, alvo dos motejos dos colegas, eles aprendiam a não ouvir e, de forma vingativa, iam logrando o que, em princípio, estava ao alcance de todos, mas que eles, ao fim e ao cabo, acabavam por apanhar.

Tornavam-se, assim, exímios na dissimulação, na aparente ausência e no golpe rápido, inesperado, compensador.

Eram falsos, surpreendentemente calculistas, com objectivos bem explícitos, quando os outros se dispersavam por milhentas solicitações.

Ora, fazer de uma coisa destas um ministro e, muito especialmente, um ministro dos assuntos sociais, não lembraria sequer ao diabo.

O certo, porém, é que a democracia em que nós vivemos tem aberrações de natureza intrínseca que dão aos videirinhos enormes possibilidades, sobretudo se estes dominarem a arte do falar melífluo e da intrigalhada: a teia que se tece entre amizades do género cria uma rede onde os papalvos tombam e os menos papalvos sentem tolhidos os movimentos.

E, então, já acomodados em posições cimeiras, os meias-fodas, friamente, cruelmente, vão derrubando, um a um, quaisquer obstáculos ou opositores, numa compensação programada das suas frustrações.

Acrescente-lhe, agora, a fé obstinada numa convicção religiosa ou política e teremos um ser aberrativo, que não hesita em torturar ou matar mesmo, para salvar a alma, se o país o exige. Em suma, um inquisidor-mor, com sotaina ou sem ela.

Este de quem falo, convenceu-se há muito que, no mundo, os detentores do dinheiro são os produtores de riqueza e, àqueles que o não têm, resta enredá-los em leis de submissão que os tornem caninamente dóceis.

Assim, confortavelmente instalado numa maioria ocasional, a primeira coisa que fez foi atacar os contratos colectivos de trabalho, a substituir por contratos individuais, onde o patrão dispusesse de direitos sem reserva e o empregado estivesse à mercê dos caprichos ou das eventualidades.

Escusado será dizer que os sindicatos, revoltados, trouxeram para a rua milhares de trabalhadores, mas a surdez do ministério foi defendida por centenas de cães-polícias e a lei acabou em facto consumado.

Mais difíceis de domar, os empregados dos serviços públicos, porque ligava-os ao Estado uma vinculação permanente, obtida há muito.

A estratégia usada foi virar contra eles os outros trabalhadores, apresentando-os como uns calaceiros que não faziam nada, ganhavam mais que no sector privado e queriam manter uma situação de privilégio.

Era bastante engenhoso, de facto, jogar com a inveja dos que se viam privados de vida própria e de estatuto de pessoa humana.

O efeito, porém, não foi o desejado, pois toda a gente sabe que o empregado público, apesar de casaco e gravata, não passa de um pelintra igual aos outros.

Estava-se na altura de apelar para meios mais radicais: a privatização sectorial.

Em nome da eficiência, é claro.

IX

Chama-se Borges, um nome bastante vulgar entre nós e, não fosse a pose superior e condescente de perna cruzada e mão amparando-lhe o crânio carregado de ideias, tudo levaria a crer tratar-se de uma pessoa comum entre seres comuns.

Pois isso é um erro, já que, nas palavras da moderadora saltitante, a personagem em questão anda imenso lá por fora, pertence a não sei quantos conselhos de administração, participa em simpósios vários e tem opiniões infalíveis acerca da nossa economia e da economia mundial.

Apronto-me, por isso, a ouvir e aprendo: a vaga de falências fraudulentas e as deslocalizações são, afinal, um bem para todos.

Por duas ordens de razões, a saber:

1 – as empresas que desaparecem vão dar lugar a outras que hão-de vir, num processo de dinamismo económico que catapultará o país para as posições cimeiras do desenvolvimento;

2 – os transtornos ocasionais das famílias desempregadas são apenas a véspera de um futuro resplandecente, porquanto esta é a oportunidade de encontrar um trabalho melhor.

Acenos aquiescentes dos demais participantes nesta mesa-redonda, e a conversa prossegue em termos civilizados, com graças e risos esfuziando, numa naturalidade tão solta que eu pergunto a mim mesmo se o louco não serei eu.

É que eles parecem falar de um mundo real que eu não consigo ver e receio, até, que os vindoiros façam um dia a história dos tempos actuais, não por aquilo que sentem e pensam os simples mortais, mas pelas sentenças expendidas e religiosamente gravadas das nossas luminárias.

X

É assim uma espécie de coisa anémica, prò deslavado, face lampinha, guedelha repuxada, beiça grossa a empastar-lhe a palavra.

Não lhe conheço as origens, mas, segundo se diz, herdou do pai a lábia de alfaiate, a cultura de bairro, o gosto pelas fazendas caras. Quase um dândi chulesco. E tem um curso, sim senhor, de direito, pois qual havia de ser, feito à medida naqueles tempos saudosos das passagens administrativas. Curso, esse, que, se não lhe acrescentou as ideias que nunca teve, deu-lhe, ao menos, vocabulário composto para discussões futebolísticas.

Não se mostrasse ele, por vezes, atrevido, metendo-se por caminhos pouco seus, e teríamos aqui um indivíduo capaz de qualquer tarefa, que não fosse a de trabalhar.

Em todo o caso, reconhecem-se-lhe méritos: hábil intriga, apetência televisiva, videirinho quanto baste.

Evidentemente, enveredou pela política, ou o que assim se chama como actividade trafulha, chegou-se aos outros da sua laia e, tendo desestabilizado o próprio partido, embrulhado, então, em desavenças de família, acabou por alcançar uma chefia, para espanto de uns, os mais inocentes, e gáudio de outros, os mais mordazes.

Havia, contudo, um fim mais em vista: locupletar-se, em manha e vaidade. O sonho de qualquer populista.

Junta-se, portanto, à direita quimicamente pura, distribue probendas pelos seus acólitos e vá de dilapidar os bens do país, ao ponto de lhe tornar futuro incerto.

Tão longe foi e tão grande o clamor que o presidente da República sentiu-se na obrigação de correr com ele por incompetência, apenas por incompetência, porque existem pruridos formais nas nossas leis a impedirem que se lhe achaque uma gestão danosa.

Continua, porém, firme na governação, cuspinhando veneno e grosserias, insistindo na destruição acintosa do pouco que ainda resta.

A última graça sua é um projecto de venda dos edifícios públicos, a um consórcio qualquer, que, generosamente e mediante avultadas rendas, os alugará ao mesmo Estado que os alienou.

Esta, que eu saiba, não lembraria sequer ao próprio diabo!

XI

O Paulinho das feiras chamou a alguém “picareta falante” e bom seria ter-se visto ao espelho, que o visado é um pobre diabo com ar aflito e encolhido de quem busca a retrete e a não encontra.

Qualquer semelhança com o bicudo instrumento está, sim, no chistoso, dado o seu perfil de iguana.

Quanto à falação, reconfirma-se ser mais fácil descortinar o argueiro em olho alheio que vencer a cegueira provocada pela tranca que nos vazou os olhos.

Porque, quem padece, de facto, de incontinência verbal é ele, nem quero saber por que traumas, e nada estranharia que um dia se instalasse, definitivamente, na televisão acobardada, a alimentar o vício.

E, se já era divertido vê-lo de peito empinado, muito marcial, em revista às tropas, agora mijamo-nos a rir ao encontrá-lo nos ecrãs, por fixação doentia de namorar o pagode, em afirmações possessas da sua inteligência, da sua mente esclarecida, da sua honestidade, da sua generosidade, dos seus princípios morais, das suas convicções religiosas, do seu eu de eleição.

Mas, cautela, ou eu me engano muito, ou, desta tartufice toda, sai-nos ainda um santo salvador da Pátria.

XII

Por muito que se diga do mundo, ainda existem paciência e comiseração.

Daí a minha esperança de que apareça um dos muitos doutores em assuntos que desconheço e me explique o que me mói, remói e não deixa dormir.

Eu, se falhar um compromisso, sou interpelado na rua, chamado de burlão, levado a tribunal, metido na cadeia.

Um político espertalhão promete mundos e fundos, caça-me o voto e, uma vez no poleiro, faz exactamente o contrário, rindo despudoradamente da minha pacovice, em total impunidade.

- Foi eleito, tem toda a legitimidade – afirmam os entendidos em matérias constitucionais.

- Será castigado nas urnas – avançam outros a quem ainda importam as questões éticas.

Fraca consolação!

Porque, entretanto, o tipinho já se abotoou com reais proventos, regalou amigos, preparou um ninho numa administração qualquer, talvez a mesma que o incumbiu da missão de lhe alargar o património, graças a privatizações desaforadas, leis gostosas, contratos suculentos.

E a mim, cidadão a pé, só me resta ver, fazer sacrifícios e muito caladinho, não vá surgir um polícia que me aclare as ideias com cacetadas no lombo, pois assim se tratam os que não sabem de democracia, mas pagam o regabofe.

XIII

A falta de carácter não é tão condenável quanto dizem.

Como vivemos por favor, já que tudo à volta foi abocanhado por alguém, há toda a conveniência em ter uma espinha gelatinosa que, para medrar, se arrime a quem possue e pode.

Primeira vantagem.

Depois, estar do lado do forte é estar entre os fortes, forma possível de pertencer aos vencedores.

Segunda vantagem.

E, se um dia o fraco se rebela e vence, pode-se alegar o cumprimento do dever, a obediência ao chefe.

Terceira e não menor vantagem.

Conclusão: com farda ou sem ela, antes uma vida de lacaio que as chatices das convicções sérias e sentimentos nobres.

XIV

Com tais médicos, o doente morre.

De início, falavam de paixões e deixámo-nos sangrar.

Agora, numa terapia frenética, preconizam choques: choque fiscal, choque tecnológico, choque de valores...

É chegada a hora de correr com eles, mandá-los trabalhar, que aprendam o ofício e ética antes de botar palavra.

E, uma vez libertos destes coveiros de má morte, voltemos ao bom-senso, à nossa humanidade.

A vida que queremos viver merece maior respeito.

XV

Alvíssaras a quem descubra um intelectual no país.

Pistas: salas de espera em departamentos de propaganda, viagens presidenciais com estadia paga, simpósios promocionais, nacionais e estrangeiros.

Caso tropece num, diga-lhe que o pensamento morre quando o estômago comanda.

XVI

Presunção e água benta, cada um toma a que quer.

Mas causa engulhos ver os mesmos que arruinaram o país, agora a braços com desemprego, miséria, economia falida, défice comercial galopante, atraso cultural enorme, arrogarem-se de sábios, competentes, honestos, cumpridores.

Uns justificam o atraso, alegando falta de tempo, para destroçar o resto, com certeza; outros, também esquecidos das responsabilidades passadas, garantem que Portugal sairá do atoleiro, assim obtenham eles uma maioria absoluta e estejamos nós, como sempre, dispostos a sacrifícios, como se os sacrifícios não fossem o pão dos nossos dias.

Venha alguém que explique onde acaba o raquitismo mental e onde começa a tartufice!

Ou será apenas provincianismo tacanho e a correlativa sede de protagonismo que levam o míope a julgar-se são?

Contudo, a nossa gente mantém-se ceguinha de todo e é grande a hipótese de haver mais do mesmo, com 25% de ordinarice e 5% de raiva trasvetida.

XVII

Não bastava o que temos cá, ainda entra casa adentro um Condolesa qualquer, a cuspinhar veneno e ameaças.

Lembro-me, na África colonialista, de um mulato escuro que tratava por cães os seus irmãos de raça.

Também, nos campos de concentração, eram presos comuns que guardavam os prisioneiros e os torturavam.

Nada melhor, de facto, que um lacaio promovido a executivo para acossar e martirizar os outros.

Não precisa o amo de sujar as mãos.

XVIII

Mostram-se gratos por ter nascido, dizem-se defensores da vida, opõem-se à lei do aborto.

Não vos nego esse direito, sabendo sobretudo que, na vossa linhagem, papás e vovós deitaram a mão a um bom naco deste mundo e, aos filhos de uma aristocracia de ladrões, todas as modormias são devidas, por direito próprio.

Mas não generalizemos, o vosso caso é singular.

As crianças que nascem, regra geral, encontram apenas uma modestíssima cesta de vime e, caso persistam em viver, nada têm de seu, são escorraçadas de um lado para o outro, entregues ao deus-dará, porque, estando tudo apanhado, só lhes resta crescer miseravelmente, subsistir por favor, alugar-se à hora, na idade adulta.

Lembrem-se os senhores que, a estes pobres diabos, não lhes será possível sequer o desabafo de D. João II, quando subiu ao trono: “Meu pai fez-me Rei das estradas de Portugal!”

Pois, como sabem melhor que eu (alguns de vós sentam-se em conselhos de administração), as estradas agora são da Brisa.

Objectar-me-ão com a vossa generosidade, sempre dada à esmola, aos bons e profundos sentimentos.

Sejamos um nadinha honestos: estariam os senhores dispostos a viver uma vida por esmola e de esmolas, na incerteza constante do amanhã, esperando caninamente que um bom amo lhes alugue os serviços?

Creio bem que não!

A perspectiva é pouco digna e, muito menos, risonha.

Peço-vos, então, humildemente, alguma compreensão cristã, já que mais não seja no vosso próprio interesse, que a bolsa que vos pende do cinto não vai chegar para os milhões de pedintes.

XIX

Quem os oiça falar julgará que beberam a competitividade no leite materno.

Ele é competitividade para aqui, competitividade para acolá, competitividade assim, competitividade assado...

Tudo farolice, porém!

A competitividade deles nunca parte da igualdade de oportunidades, mas das vantagens de nascimento, em heranças, ambiente almofadado, padrinhos, relações...

Que lhes importa a degradação do ensino público?

Eles estão defendidos em escolas caras onde a despesa não conta.

Que interessam as nenhumas perspectivas dos que, por falta de meios, estão proibidos de aceder a universidades capazes?

Eles têm as suas, católicas, isto é, ecuménicas, no país ou fora dele, das quais regressam nobilitados, como brasileiros de torna-viagem, senhores de títulos académicos que, se não acrescentam saber, dão, pelo menos, prestígio e justificam os altos cargos.

A dor e frustração dos outros, o desperdício de valores, a apagada e vil tristeza em que Portugal se esvai são coisas que os afectam pouco, desde que continuem a reinar e os proventos se multipliquem.

E que ninguém lhes bula nos interesses ou, uma vez aborrecidos, pegam nas armas, bagagens e dinheiro e pisgam-se, muito patrioticamente, para terras de gente mais conforme e mais rendosa, já que a lei tudo permite.

A eles, entenda-se.

XX

Há dias verdadeiramente proveitosos e ontem foi um deles.

Aprendi três coisas:

1. O Norte é granítico.

Os votos vão concentrar-se, ainda, nos partidos que o põem no desemprego.

2. Tenho o dom da adivinhação.

O resultado final das eleições foi mais do mesmo, 28% de ordinarice, 7% de raiva travestida.

Eu havia previsto, sem cálculo de probabilidades, mais do mesmo, 25% de ordinarice, 5% de raiva travestida, o que está dentro dos intervalos, como os técnicos asseguram.

3. A lufada de modernidade vem-nos do interior.

Assim se entende que os barões do partido maioritário, oriundos de lá, sejam paladinos de um socialismo moderno, actual, dos nossos dias, liberto do sentido espúrio, ainda que etimológico, de socialização dos meios de produção.

É de crer, então, que a história se repete: as ideias liberais, inicialmente de esquerda, são hoje a bandeira de uma direita assanhada.

XXI

Dá gosto ouvi-los, de tão bem ensinados.

Com seu pêlo luzidio, os cãezinhos fraldiqueiros dos patrões vão ladrando que a vocação do Estado não é criar postos de trabalho, gerar riqueza. Isso cabe às empresas privadas.

Eu prefiro os gatos, inteiros, não capados. São muito mais independentes e ai de quem lhes pise o rabo, que eles arranham.

Por esta e mais razões, fico a pensar:

- O Estado somos nós e rege-se pela constituição que consagra o direito ao trabalho. Donde vem esta ideia de que a vocação do Estado não é...?

A estupidez é minha, pois bastava ver-lhes os olhinhos gulosos com que miram o resto do património que ainda não foi abocanhado.

Tem de ser, já que não há lógica nenhuma naquilo que defendem.

Se não, vejamos: uma empresa estatal não dá lucro, o que não era o caso de muitas já privatizadas nem de muitas que estão na mira. Mas havia gente a trabalhar, a pagar impostos, a descontar para a segurança social, em vez de depender dela, a gastar o seu dinheiro que circula e faz mexer a economia, gerando mais riqueza.

- Esse é o papel das empresas privadas – apressam-se a dizer.

Não é bem assim! O papel de uma empresa privada é realizar lucros, não as preocupações sociais. O patrão ou ganha quanto tem na gula ou fecha a loja, safando-se muito simplesmente. Quem ficar no desemprego, de mãos a abanar, com filhos, responsabilidades, encargos, que se amanhe.

E, na melhor das hipóteses de o negócio ser rendoso e bem rendoso, haverá sempre a acrescentar uma boa fatia para o patrão, ou a segurança do emprego vai ao ar.

Sim, sei o que se alega: que a gestão privada é melhor, etc., etc.

Como se explica, então, tantas falências no país? Não falando das fraudulentas, se é que não são todas.

Aliás, na promiscuidade em que vivemos, do público com o privado, os gestores são sempre os mesmos, andam cá e lá, em contínua transfusão. São eles bons num lado e maus no outro? Que fatalidade é essa?

Há qualquer coisa que não bate certo.

XXII

Marx morreu.

Com que alegria o dizem, os bajuladores do sistema, na expectativa de uma cátedra universitária ou mesas-redondas lucrativas.

Pois desenganem-se.

Nunca a exploração foi maior, nunca foram tantos os proletários.

Que proletário é aquele cujo bem é a prole, ou seja, a filharada, e vê-se obrigado a vender a força de trabalho, para sustento seu e dos seus.

Do que aperta parafusos ao executivo de pose altiva, todos somos proletários, sujeitos a um patrão, que só atenta em nós enquanto peça útil na aparelhagem que montou.

Caso contrário, rua, ou melhor, valeta.

O trágico é não se ter a consciência disso, particularmente aqueles que vestem camisa lavada ou gozam de alguns favores, rateados, por fazerem e idearem algo que gera bom dinheiro a quem os contratou.

Os tempos, contudo, hão-de ensinar-lhes, estão a ensinar-lhes que nada, afinal, é seu e que a vida que vivem não lhes pertence.

Se não, experimentem pensar por suas cabeças, exponham abertamente as conclusões e esperem pelo resultado.

XXIII

Podíamos ter tudo, modesta, mas dignamente: maternidade, escola, cultura, trabalho, assistência médica, velhice tranquila, uma morte sem mágoa.

Pois não é suficiente!

Queremos uma casa principesca, um carro de luxo, uma vida ostentória, tratamento à parte, ainda que, à volta, só vejamos miséria.

E alguns pretendem mesmo um lugar no céu, porque andaram em missas e deram migalhas do que sobejava.

Maldito egoísmo que trava a ascensão do homem e prende-o, aferradamente, à condição de besta!

Consolemo-nos, porém: numérica e proporcionalmente, nos Estados Unidos, esse farol da democracia, há mais crianças a viver na pobreza.

XXIV

Sou ateu e não me assusta a ideia da morte, numa idade em que já não é hipótese remota.

Espanta-me muito o medo dos crentes, nomeadamente do Papa, que, ao mais pequeno espirro, se rodeiam de especialistas, adiando, quanto possível, a chegada aos céus.

São mais consequentes os fanáticos islamistas que se fazem explodir em nome de Alá.

XXV

Ignorância quanto baste, espessamento das meninges, atrofia cerebral e a cegueira é certa.

Processo indolor, resultado seguro.

E dá para jogar à bola, que a cabeça é rija.

Não dá, isso não, para distinguir as coisas.

E o nazi-fascismo avança, mas ninguém o vê, porque não usa bigode nem guedelha para a testa.

XXVI

Perde-se em juventude, ganha-se em sabedoria.

É o que dizem, pelo menos.

Eu cá duvido que seja verdade.

Socialmente falando, de há trinta anos a esta parte, vamos de mal a pior e sem remédio.

No que se refere à minha pessoa, também o dito não me convence, pois contam-se os dias em que a sabedoria e o entendimento não me preguem partidas.

E, nestes últimos tempos, desconcerta-me uma questão, que cabeças pensantes encaram com naturalidade.

Ei-la.

A criação de uma empresa é um acto social que envolve muita gente: trabalhadores, credores, consumidores.

O Estado, autorizando, tem responsabilidades de avalista e deve velar para que ninguém saia prejudicado.

Mas um empresário, que não é parvo, embolsa ajudas, subsídios, isenções, benesses e lança na rua os empregados, indo criar ao lado uma nova empresa, para abichar novos favores.

O Estado, creio, deveria actuar de imediato e atender de pronto aos defraudados, como avalista que é.

Depois, disporia de todo o tempo do mundo para pedir contas, enrolar-se nas rabulices da advocacia, esperar que os tribunais se pronunciassem.

Muito pelo contrário, manda a polícia proteger o criminoso, acoberta-o com o sigilo bancário, faz vista grossa a uma riqueza ilícita, põe o ministro da tutela, de cabecinha à banda e olhar seráfico, a dizer às câmaras:

- Que podemos fazer?

Burla, roubo, abuso de confiança, gestão danosa são termos que não se aplicam a este caso, já que o senhor empresário é vítima das circunstâncias, sendo a culpa de Bruxelas ou dos chineses, alguém enfim, que a lei jamais alcance.

Dir-se-ia que o país foi talhado à medida de ministros irresponsáveis e empresários desonestos.

Quando nos proporemos chamar uns e outros à pedra?

XXVII

Educar, etimologicamente, quer dizer “conduzir, levar”.

Hoje, mais que nunca, é levar... à certa, ou a burguesia não tivesse bons técnicos, safados, mas espertos, a velar-lhe os interesses.

E, com Maio de 68, eles aperceberam-se do perigo que uma escola séria representa.

Então, em pressa aflita, inundaram liceus e universidades de professores ignorantes, desonestos, rebaixaram o nível do ensino, escancararam as portas a qualquer vadio, em nome, evidentemente, do sagrado direito ao saber.

Até foram ao ponto de promover uma pedagogia lúdica, mais aliciante, sem dúvida, que a da seriedade, do esforço, da disciplina, da responsabilidade perante quem trabalha a vida inteira e não tem com que encher a barriga.

A noção de dever volatilizou-se.

Com, por um lado, descabeçados inúteis, a sonhar com tachos que à nobilitação é devida e, por outro lado, sacrificados pagantes, esperando, em vão, que a nova vaga lhes proporcione vida e faça do mundo um lugar decente.

Todos enganados, porque a estupidificação nunca gera exigência e a espera sem exigência é aceitação passiva, paciência de corno.

Entretanto, no pântano onde a inteligência não brilha, florescem fortunas que a desgraça mental tolera e admira.

XXVII

Sou defensor da iniciativa privada, mas em tudo há limites.

Não me passa pela cabeça um Estado que possa ficar refém de uma ou duas, tanto dá, empresas de electricidade ou petrolíferas. E quem diz estas diz outras, de grandes dimensões, de que o país dependa.

Imagine-se que resolviam fechar, transferir-se, uma coisa do género, e lá ficaríamos à espera que surgisse um benemérito a pôr de novo a nossa economia em marcha.

Além disso, se se pretendem estratégias de desenvolvimento, compete ao Estado criar os meios, concentrar esforços, no interesse geral e não particular, até porque o dinheiro é nosso.

Não parece possível, por exemplo, que uma empresa privada, mesmo de grandes dimensões, tenha investigação de ponta que vise a inovação ou as condições de trabalho ou os impactos ambientais.

Portanto, as indústrias estratégicas, quer pelo montante dos custos, quer pela ambição de objectivos, devem ser património de todos nós.

O resto da actividade económica, salvo em casos de regulação, esse poderá estar na mão de particulares, que funcionarão complementarmente e dentro das suas posses.

Aliás, em todas as casas onde reina o bom-senso, não se vê cada qual a puxar para seu lado, nem ninguém terá o desplante de dizer que ele está servido e os outros que se amanhem ou eu tenho mais direito que vocês e nada de contestações.

Ora o país é a nossa casa.

Ou já não é?

XXIX

Ao genérico apressado de uma das muitas telenovelas, seguem-se os ponteiros de um relógio inexorável. Ouve-se algazarra a lembrar trombetas de anjos e o céu televisivo escancara-se, revelando, em seu esplendor, o papagaio de serviço.

- O grande derby, por que o país anseia, é às 20 horas, seguido, transmitido e comentado pelo nosso colega...

O nome ecoa: um arguto estratega de bancada, perito em 4-3-2 com libero, enérgico inovador de terminologias desportivas.

Logo surge a criatura anunciada, presente, agora, para uma análise sucinta do transcendente derby.

Digo derby e não jogo, desafio, encontro ou qualquer outra vulgaridade do vernáculo esquecido.

Durante meia-hora, nós, os estimados telespectadores, sabemos das expectativas das equipas, sua constituição, tácticas e técnicas, presenças e ausências, lesões, recuperações, treinadores e auxiliares, contratações previsíveis, transferências certas, repercussões aquém e além-fronteiras.

O momentoso evento parece, no entanto, igual aos eventos de ontem e de anteontem e de transanteotem e dos dias que para trás ficaram e dos dias que adiante virão.

A retumbância explica-se pela necessidade de manter entretida uma nação que não tem mais nada, nem sequer objectivos.

Artimanha antiquíssima, conhecida dos romanos, praticada no fascismo, explorada à exaustão em democracias de pacotilha.

Surpreendentemente, informações de interesse: economia em baixa, défice em alta, desemprego maremótico, crise, crise e mais crise.

Sosseguem-se os portugueses que a resolução está à vista, no ditame sábio dos sábios da casa: redução das despesas, racionalização dos gastos, contenção dos salários, flexibilidade laboral e incentivos às empresas, subsídios à exportação, diminuição do IRC...

Mais sacrifícios, somados, é certo, à penúria destes anos. Mas, consolidadas as finanças, o maná divino cairá na nossa terra e uma vida de prosperidade a todos nós espera.

- Graças a Deus! – repetem incansavelmente, patrões e executivos, que, nisso, religiosos são, sem deixar os créditos pelas mãos alheias.

E é que não deixam, pois escute-se o cândido apresentador que exulta com os muitos milhões da compra desta por aquela empresa, das aquisições de acções, das especulações bolsistas, das múltiplas transações, fusões, concentrações. Dir-se-ia, até, muito perto do transe, quando fala dos lucros, confessados, no último trimestre: mais 30% sobre os 30% do trimestre passado sobre os 30% do trimestre anterior e assim sucessivamente, a bem do país.

Às claras, sem ocultação de dados: ganhos que se expõem, riqueza que se alardeia, sobranceria impante que se não disfarça.

Há alguém que não está no seu papel e somos nós, os que sofrem, os que tudo aguentam e se sentem bem com dinheiro para copos e para futebóis.

Burro que consente albarda, em vez de uma, leva três.

E eis a voz televisiva que volta uma vez mais ao futebol, com eventos menores, mas igualmente importantes. Depois, são crimes, desastres, manifestações de fé, futebol ainda e coisas do arco-da-velha que só acontecem na longínqua América – um cavalo que dança, um cão que arrebita as orelhas.

Um espanto... saloio.

Este é o pábulo que ao povo é dado e que o tem à farta: telenovelas de manhã à noite, bate-papos de coscuvilheiras, espectáculos de cantores repimba, concursos e concursos de sabedoria de almanaque, de adivinhação de preços, de misses em pelota.

Toda a panóplia de um embrutecimento programado.

O conteúdo é reles, o dito soez, representação medonha, alegria boçal, entusiasmo à patada.

Notável ajuda à escola e à falta de pedagogia, que os centros de desinformação sabem bem como se domina o mundo.

Se eu fosse mais optimista, daria um bom conselho: desligue-se o aparelho e pense-se um pouco mais.

XXX

É pena não perceber de leis, para melhor entender o que outros não contestam e aceitam por óbvio e justo.

Acusados e defensores têm direito a calar-se ou a mentir, se as respostas a dar lhes são desfavoráveis.

Ignorante que sou, muito estimava saber como se concilia isto com a obstrução à justiça, que é um crime e, portanto, penalizável.

Aliás, a possibilidade da mentira abre, suponho, a justiça à injustiça, à rabulice de advogados e os processos arrastam-se, quando soa a dinheiro, acabando, por fim, em águas de bacalhau ou em previstas e úteis prescrições.

Razão por que não há, que eu saiba, peixe gordo no xadrez e, exigindo a malfeitoria culpado, este será o porteiro, como nos livros da Ágata, branqueadora fina da classe fina, pois a nobreza a isso obriga.

E esta justiça-teatro subsiste, inabalável, connosco condenados a despesas colossais e à conta do orçamento de todos nós.





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