Infuncionalidade dos Ditongos Crescentes
Janeiro de 2004 A. Soares

Tem-se entendido que há na língua portuguesa dois tipos de ditongos,
crescentes e decrescentes, assim classificados segundo a posição da semivogal:

  • se esta se encontra antes de vogal, o ditongo é crescente, como em piara e cuada;
  • se aparece depois da vogal, então o ditongo é decrescente, como em paira e cauda.



  • O trabalho que se segue procura demonstrar que a fonética articulatória não se dá conta de uma diferença funcional existente, que só a fonética sistemática é capaz de revelar.

    Um dos fenómenos mais perceptíveis em qualquer enunciado é a existência de picos de intensidade que se situam, obrigatoriamente, numa vogal.

    Tais picos de intensidade são acentos tónicos que, em certos casos, determinam, por si só, o significado.

    Ex.:
      arem / harém
      dívida / divida
      façam / facção
      íntimo / intimo
      pensam / pensão
      público / publico
      túnel / tonel


    Este facto regista-se, apenas, quando as vogais, condicionadas por uma razão particular, apresentam, em posição átona, a mesma abertura que lhes é própria em posição tónica. Na ausência de constrangimentos, que serão apontados sempre que necessário, as vogais átonas caracterizam-se por uma abertura reduzida, relativamente às vogais tónicas.

    Deste modo, torna-se necessário reconhecer a diferença que existe entre vogais tónicas e vogais átonas e estabelecer, se possível, a relação existente entre estes dois tipos de vogais.

    E a derivação, processo intrínseco à formação da língua, evidencia um rigor sistemático na representação, em posição átona, das vogais que passaram de tónicas a átonas.

    Atente-se nos exemplos seguintes:

      bravo > bravura, fado > fadista, jarra > jarrão
      cego > cegueira, festa > festança, leve > leveza
      dedo > dedada, medo > medonho, seco > secura
      bode > bodum, cobra > cobrelo, pólo > polar
      boca > bocal, lobo > lobato, tolo > tolice


    Acrescente-se:

      bico > bicanca, livro > livresco, vidro > vidraça
      grumo > grumoso, mudo > mudez, tubo > tubagem


    Impõem-se, pois, desde já, uma constatação:

    ao contrário das outras vogais, o i e o u aparecem indiferentemente em posição tónica ou em posição átona, o que significa continuarem idênticas a si mesmas, quaisquer que sejam as condições.

    É que são vogais que, dada a sua reduzida abertura, não podem reduzir-se mais, sob perigo de desaparecerem.

    Em contrapartida, as outras vogais tónicas apresentam valores reduzidos quando perdem o acento tónico.

    Mas, reconhecida a identidade do i e do u em posição tónica ou átona, as vogais que representam as tónicas em sílaba átona só podem ser consideradas realizações reduzidas dessas mesmas vogais, tanto mais que a correspondência se faz sempre de uma forma rigorosa e sistemática, ao ponto de haver, por vezes, convergências homofónicas.

    Ex.:
      pele > pelar
      pêlo > pelar
     
      serra > serrote
      cerro > cerrote
     
      posse > posseiro
      poço > poceiro
     
      bola > bolar
      bolo > bolar
      bula > bular

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    Há, contudo, uma situação em que as vogais tónicas não se reduzem quando,
    de tónicas, passam a átonas, no processo de derivação:   antes de i ou de u.

    Ex.:
      caixa > caixote, saibro > saibreira
      flauta > flautista, jaula > enjaular
      beijo > beijoca, cheiro > cheirete
      feudo > feudal, neutro > neutrino
      boina > boininha, hemorróida > hemorroidal
      doido > doidice, noite > noitada
      frouxo > frouxidão, louco > loucura


    É uma manifesta infracção à regra que determina a redução da abertura da vogal quando, de tónica, passa a átona.

    A menos que se esteja perante uma outra realidade.

    E assim acontece.

    Repare-se no facto de a língua portuguesa não admitir um acento tónico para lá da antepenúltima sílaba ou, em termos mais simplistas, para lá da antepenúltima vogal, porquanto cada sílaba tem de ter, necessariamente, uma vogal.

    A prova encontra-se na deslocação do acento tónico, no processo de derivação, sempre que o acrescentamento de um sufixo levasse o acento tónico para lá da antepenúltima sílaba.

    Ex.:
      brônquio > bronquíolo
      demónio > demoníaco
      mármore > marmóreo
      número > numérico


    Ora esta deslocação não se verifica se a vogal tónica é seguida de i ou u.

    Ex.:
      aeronauta > aeronáutica
      alcalóide > alcalóidico
      centauro > centáurico
      metalóide > metalóidico
      pleura > plêurico
      terapeuta > terapêutico


    Assim sendo, três conclusões são já possíveis:

    1 — o i e o u que se seguem à vogal tónica não são vogais, mas entidades fónicas especiais, a que se poderá dar o nome de semivogais.

    2 — a vogal que precede estas semivogais forma com elas uma unidade específica, com regras próprias na sistemática da língua, entre as quais o facto de a semivogal jamais ser portadora do acento tónico.

    3 — o vínculo que se estabelece entre a vogal e a semivogal e a diferença de abertura entre elas criam aquilo que se chamará um ditongo decrescente.

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    Acontece, porém, que o i e o u também podem ocorrer, numa situação aparentemente idêntica, antes das vogais tónicas.

    Veja-se:

          
      criado, miasma, teatro
      dieta, giesta, piela
      frieza, hiena, Oviedo
      idiota, pior, viola
      bioco, miolo, ocioso
      luar, quarto, soalho
      cueca, duelo, moeda
      crueza, dueto, poema
      lutuosa, quórum, suor
      actuou, frutuoso, suou


    É lógico, então, perguntar se não se está perante o que parece ser um ditongo crescente.

    Não e por duas razões:

    1 — também aqui, a vogal tónica está obrigada à regra de redução da abertura, ao passar de tónica a átona, o que não acontece nos ditongos decrescentes.

    Ex.:
      beato > beatice, mealha > mealheiro, piada > piadético
      hiena > hienídeo, Siena > sienito, Viena > vienense
      idiota > idiotice, pior > pioria, viola > violão
      iodo > iodato, miolo > mioleira, prior > priorado
      dual > dualismo, luar > luarento, quarto > quartilho
      goela > goelar, moeda > moedeiro, poeta > poetisa
      dueto > duetista, joelho > joelhada, poema > poemeto


    2 — Mais ainda, o i e o u que precedem a vogal tónica podem ser portadores do acento tónico, coisa que jamais acontece com o i e o u que fazem parte de um ditongo decrescente.

    Ex.:
      elogioso < elogio
      fluorite < flúor
      frieza < frio
      triádico < tríade
      variólico < varíola
      viela < via



    Portanto, não se trata de uma unidade idêntica à de um ditongo decrescente, com a única diferença de os seus elementos constitutivos se encontrarem em ordem inversa.

    Veja-se, finalmente, como é indiferente, para a compreensão do significado, a realização plena ou abreviada dos seus elementos, o que de modo nenhum acontece com os elementos constitutivos dos ditongos decrescentes.

    Em suma:

    o chamado ditongo crescente não é uma realidade da fonética sistemática da língua portuguesa, mas um fenómeno da fonética articulatória, disciplina da acústica e não da linguística.


     



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