Comentário de um Poema de António Aleixo

Fevereiro de 2004
Maria José Santos


                Só a Arte tem o poder
                De a todos nós transmitir
                O que todos podem ver
                Mas poucos sabem sentir.

                Dom de Artista tem quem cria
                Obras de arte: esse é artista,
                Como não é quem copia
                Aquilo que tem à vista.

                Nada direi, mas, enfim,
                Vou ter a grande alegria
                De a Arte dizer por mim
                Tudo quanto eu vos diria.

                Mágoas descritas em verso,
                Quando nascem de almas sãs,
                Percorrem todo o Universo
                Falando às almas irmãs.

                                António Aleixo

Comentário

Este poema está constituído por quatro quadras, em redondilha maior e com rima cruzada em todas as estrofes. Além destes aspectos formais, podemos, ainda, verificar o encavalgamento entre todos os versos de cada uma das quadras, o que, por um lado, constitui uma característica da poesia popular e, por outro, contribui para fazer de cada estrofe uma unidade de significação com valor semântico próprio, podendo, cada uma delas, ser lida como um todo.

No entanto, o termo "Arte", presente nas três primeiras quadras, assim como o primeiro verso da última estrofe que explica e particulariza o campo da arte ("em verso") referida, funcionam como elementos de ligação entre as quatro estrofes, formando, assim, uma unidade maior de significação que é todo o poema.

Deste modo, podemos considerar haver uma estrutura contínua, formada pelo encadeamento de quatro partes semânticas e complementares entre si, porque as ideias expressas na primeira estrofe são retomadas nas seguintes, num crescendo quanto a quantidade de informação temática.

Assim, o tema da Arte como único meio de comunicar sentimentos está expresso em todas e cada uma das estrofes.

A ideia de comunicação é logo dada no segundo verso pelo verbo "transmitir"; na terceira estrofe, com a repetição do verbo dizer ("direi"; "dizer"; "diria"), reforçado pelo tom coloquial ("mas, enfim") e pelo discurso pessoal com o receptor num "vos"; finalmente, na última quadra, com o gerúndio do verbo falar ("falando") a estabelecer ligação entre as "almas sãs" e as "almas irmãs".

Por outro lado, o modalizador "só" confere um cariz único e peculiar à "Arte" que é o de transcender o próprio artista ("De a arte dizer por mim / Tudo quanto eu vos diria"), estando para além do seu presente (futuro em "Nada direi" e "Vou ter a grande alegria").

A "Arte" comunica sentimentos ("sentir"; "Mágoas") que são "Tudo quanto eu vos diria". Deste modo, o sujeito poético assume-se como Artista, como aquele que "não copia aquilo que tem à vista", que escreve "em verso", e que é, portanto, apenas o canal duma situação de comunicação, o veículo através do qual a Arte se realiza, mesmo que o poeta não se esforce ("Nada direi").

As primeira, segunda e quarta estrofes têm em comum os verbos no presente do indicativo, com frases declarativas, a conferir um carácter aforístico, universal, a todas as afirmações.


Assim, o tom pessoal, que só aparece na terceira estrofe, é esbatido nas restantes onde se estabelece, na primeira quadra, uma relação Arte - nós (poucos); na segunda quadra, define-se o artista e o não artista, sendo a última estrofe a explicitação e a síntese daquelas duas ideias: a "Arte" são "Mágoas descritas em verso"; o "Dom de Artista" está nas "almas sãs" onde podemos incluir o "eu" da terceira estrofe; os dois últimos versos remetem para a dicotomia "todos podem ver" / "poucos sabem sentir", respectivamente.

Podemos, ainda, constatar o facto de as três primeiras estrofes terem como núcleo significativo uma antítese com a adversativa "mas" a separá-las, nas primeira e terceira estrofes, e a partícula comparativa "como", com o mesmo valor adversativo, na segunda estrofe. Assim, na primeira estrofe, "todos" opõe-se a "poucos"; na segunda, "artista" a "não" artista; na terceira, "Nada" a "Tudo". Estes pares antitéticos, se articulados verticalmente, darão o seguinte esquema semântico: todos - não artista - nada; poucos - artista - tudo. Na última estrofe, a dicotomia todos-poucos está presente, de forma mais subtil, em "Todo o Universo" - "almas irmãs", preferindo, o poeta, realçar a comunicação, a identificação (rima pura) entre as "almas sãs" e as "almas irmãs".

Este poema, pelas características formais apontadas, pode ser classificado de popular. No entanto, afasta-se desse padrão, quer pelo conteúdo, quer pela riqueza da rima. Temos, aqui, uma certa concepção de poesia, numa formulação de tipo geral, filosófico, que transcende o circunstancial, o que juntamente com um vocabulário simples faz lembrar algumas poesias de Fernando Pessoa como Autopsicografia e Isto. Ainda, a rima aguda e pobre, na primeira estrofe; grave e pobre, na segunda; alternadamente, aguda e grave e sempre rica, na terceira estrofe; e, de novo, alternadamente grave e aguda e sempre pobre na quarta estrofe, a par de um número constante de sílabas métricas (sete) conferem a este texto uma qualidade literária já reconhecida.

António Aleixo é, sem dúvida, mais que um poeta popular que, e segundo o seu amigo Joaquim Magalhães, tem "uma correcção de linguagem e, sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia" que o dista, em muito, dos poetas populares algarvios, como se pode comprovar pelo exemplo recolhido do Ti Jaquim, na serra algarvia, em 1987 e que se transcreve a seguir.


                À LUA NINGUÉM PODE CHEGAR

                Eles dizem que foram à lua
                E eu não quero acreditar
                Eles não foram nem chegam a ir
                Lá ninguém pode chegar.

                Anda muita família errada
                No território do Ocidente
                Há no mundo muito experiente
                Mas sobre isso não sabe nada
                Primeiramente diz que era habitada
                E cada um despacha a sua
                Ela alumeia em casa e na rua
                E desaparece a claridade
                Da mentira fizeram verdade
                Eles dizem que foram à lua

                Pois ela é nova e cheia
                Vai correndo o destino que tem
                E falam prà i também
                Que há lá pedras e areia
                Já trouxeram uma mão cheia
                Segundo se ouve falar
                Os aparelhos estão a anunciar
                Palestra da mais inferior
                E seja que motivo for
                Eu não quero acreditar.

                Há quem tenha essa ilusão
                Juntamente uma grande alegria
                Pelo modo como acusa na telefonia
                E várias vezes na televisão
                Tem acusado em toda a nação
                Que até dá gosto ouvir
                Pois só sabem é mentir
                E assim iludem o freguês
                Ainda digo mais outra vez
                Eles não foram nem chegam a ir

                O mais que há é paleio de feira
                Pois eu jogo os meus planos
                Diz que foram os americanos
                Naturalmente colocar a bandeira
                Levaram uma escada de primeira
                Porque houve quem os visse pular
                O que eles se houveram de alembrar
                Para o povo se convencer
                Que eles digam o que dizer
                Lá ninguém pode chegar





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