| Comentário de um Poema de Antero de Quental | |
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Fevereiro de 2004 |
— Maria José Santos |
A UM POETA Surge et ambula! Tu que dormes, espírito sereno, Posto à sombra dos cedros seculares, Como um levita à sombra dos altares, Longe da luta e do fragor terreno, Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno, Afugentou as larvas tumulares... Para surgir do seio desses mares, Um mundo novo espera só um aceno... Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos, que se erguem! são canções... Mas de guerra... e são vozes de rebate! Ergue-te, pois, soldado do Futuro, E dos raios de luz do sonho puro, Sonhador, faze espada de combate! Antero de QuentalComentário
Antero de Quental, autor das Odes Modernas, é quem desencadeia as irritações e tempestades do meio literário português do seu tempo, conhecidas por "Questão Coimbrã". Com efeito, Antero, ainda estudante de Coimbra, rebela-se contra a poesia oficial de Castilho e seus protegidos, e proclama a independência e combatividade dos poetas. Este acto de rebeldia surge como consequência, não só do seu temperamento e desejo de justiça, mas duma forte reacção ao Romantismo que, entre nós, degenerara num Ultra-romantismo vazio e convencional.
Este soneto, publicado na 3ª parte dos Sonetos Completos, traduz o carácter combativo e revolucionário que o poeta deveria assumir, o que já havia dado origem às Odes Modernas, onde Antero, numa nota da 1ª edição, afirma : "a Poesia moderna é a voz da Revolução".
A estrutura deste soneto é contínua, formada por duas partes sintáctica e semanticamente complementares: na 1ª estrofe, descreve-se a atitude do poeta perante o mundo; nas estrofes seguintes, essa descrição desaparece para dar lugar a uma série de apelos dirigidos ao Tu do início do poema.
Esta estrutura é progressiva, já que estes apelos, dados pelos imperativos, estão organizados de forma crescente de intensidade, redobrando-se na última estrofe.
O poema começa com o pronome tu apontando-nos de imediato para uma situação de comunicação directa, própria do estilo coloquial.
A oração relativa restritiva e a sinédoque que se lhe seguem desfazem a indefinição referida no título. Temos, então, não um poeta qualquer, mas aquele que dorme, isto é, aquele que é só espírito porque está morto há muito ("à sombra dos cedros seculares"). E está morto porque alheio, arredado da vida ("longe da luta e do fragor terreno"). O particípio passado "posto" e o adjectivo "sereno" sublinham esta passividade e alheamento.
A comparação entre o poeta e um sacerdote desvenda-nos a metáfora do 2º verso: o sacerdote "à sombra dos altares" dá lugar a um ritual, sempre o mesmo, de todos já sabido; o poeta, "à sombra dos cedros seculares", oficia o ritual de uma mesma poesia: velha, por todos já conhecida.
As aliterações em /s/ dos dois primeiros versos e em /l/ dos dois últimos delimitam os dois termos da comparação.
A rima interpolada entre dois adjectivos que, pelo contexto semântico se opõem, e o quiasmo existente entre os dois últimos termos dos 1º e 4º versos, realçam e ampliam o divórcio entre o poeta de que se fala e a vida real.
A rima emparelhada sublinha a igualdade de posições entre o poeta e o sacerdote, dada pela comparação entre as duas metáforas em que a repetição do complemento de lugar "à sombra" expressa uma atitude de refúgio na passividade do ritual.
A 2º parte é iniciada pelo imperativo "Acorda!" que é, por um lado, a articulação sintáctica com a 1º estrofe e, por outro, o começo de um estilo mais emotivo e apelativo que caracteriza o resto do poema. Segue-se-lhe uma justificação ("é tempo!") que, por sua vez, é também explicada: o sol, pela sua posição no céu, indica o momento do dia em que as sombras desaparecem e tudo se torna mais nítido e brilhante.
O advérbio de tempo "já" reforça e actualiza este momento em que já não há condições para que as larvas tumulares sobrevivam porque são o produto da decomposição dos corpos mortos e, portanto, imagem da poesia velha, caduca, criada por aquele poeta.
No verso 7, o termo "seio" revela-nos, no seu sentido etimológico, a profundidade dos mares que o deítico "esses" indica serem a luta e o fragor terrenos.
Para que dessa profundeza nasça um mundo novo, o poeta terá apenas que dar o seu "aceno", o seu sinal que será uma poesia nova, diferente.
O 1º terceto funciona como nexo do último verso da 1ª parte. É um novo apelo ao poeta que, depois de ter acordado, deve ouvir com atenção ("Escuta!") o que as multidões em uníssono clamam ("a grande voz").
No 2º verso desta estrofe, definem-se os nomes presentes no verso anterior: as multidões são irmãos do poeta; a voz são canções.
No verso seguinte, a adversativa mas explicita qualquer ideia que possa ter surgido com as reticências: as canções são de alerta e de guerra, isto é, de revolução.
Na última estrofe, temos a conclusão, desaparecendo, por isso, todas as reticências.
Depois de ter acordado por ser pleno dia e de ter escutado o clamor das multidões, o poeta deve erguer-se, tal como os seus irmãos, transformado já em "soldado do Futuro". Soldado, porque integrado nas multidões que se preparam para a revolução; do Futuro, porque se opõe ao poeta do presente que dorme, longe desta luta que deflagra com canções de uma nova poesia.
O termo Futuro surge como símbolo do mundo novo. O poeta ("sonhador") terá como missão o combate, feito de sonho e desinteresse ("sonho puro"), através da sua poesia ("espada") que será a porta-voz, a luz da revolução anunciada.
Temos, portanto, um poema de empenho social e de cariz revolucionário.
Antero de Quental assume-se como o profeta, tal como o da Bíblia que diz "Surge et ambula!", que anuncia um mundo novo, do qual o poeta deve ser o arauto e aquele que indica o caminho a seguir pelas multidões.
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