Reflexões sobre o Ensino
Janeiro de 2004 Maria José Santos

É ideia difundida e aceite que a massificação do ensino, resultante do 25 de Abril, provocou um inevitável abaixamento de nível nas nossas escolas.

Esta falsidade, repetida infinitamente, passou a verdade absoluta, a partir da qual se vem pensando o nosso sistema de ensino de há 30 anos para cá.

O resultado conhece-se: uma degradação contínua e progressiva e um abandono escolar precoce dos filhos das classes mais desfavorecidas, que contraria mesmo a tese inicial.

Dois ou três factos bastam para desmontar o argumento da massificação:

1 — Antes do 25 de Abril, já ela se verificava na instrução primária e escolas técnicas, sem nunca ter chegado à degradação actual.

2 — Esta degradação tem vindo a acentuar-se de ano para ano.

3 — Os alunos oriundos das classes médias, que sempre foram a maioria, antes e depois do 25 de Abril, conseguiam ainda há 15 - 20 anos ter aproveitamento escolar sem grandes dificuldades, o que hoje não acontece.


Onde está, então, o problema?

A sociedade sofreu profundas alterações precisamente nestes últimos 30 anos:

  • nebulosidade dos projectos para o futuro a médio e longo prazo;
  • falta de dignificação do trabalho;
  • apresentação do prazer como valor fundamental;
  • dicotomia entre o que é proclamado como objectivos e a prática quotidiana;
  • péssimas condições de vida e de trabalho.
  • omnipresença da televisão dos "big brother" como veículo de valores.

    Que papel pode e deve ter a escola, nestas circunstâncias?

    A ideia corrente de que a Escola deve adaptar-se ao meio, à sociedade, esconde uma falácia:

    A Escola é sociedade. É mesmo a única instituição onde, permanentemente, estão presentes todas as classes, valores, ideologias, interesses, qualidades e defeitos da sociedade que somos.

    Se queremos uma sociedade melhor em geral e um ensino de qualidade em particular, a Escola é o sítio privilegiado para se proceder à mudança que todos reclamamos.

  • O que mudar na escola, no ensino?

  • Instauração do ensino pré-primário obrigatório para suprir as falhas socio-culturais do meio familiar. Caso contrário, a maioria dos alunos estará condenada à frustração porque só dificilmente fará uma escolarização com êxito.

  • Elaboração de Programas a pensar nos alunos com selecção dos conteúdos importantes em cada disciplina, escalonamento de dificuldades e adequação ao nível etário da criança e do adolescente. Assim, não haveria razão para a alteração constante dos Programas, num favor ao negócio das editoras e grupos de profissionais na elaboração de manuais.

  • Inverter a orientação de métodos e técnicas de ensino centralizados, apenas, no aluno, que transformaram o professor num mero animador de actividades, descurando o papel primordial que deve ter como educador e transmissor de conhecimentos.

  • Retomar a pedagogia que dá importância à memória e à repetição como bases de uma aprendizagem para toda a vida.

  • Rever todo o processo de formação de professores:
    — A formação científica inicial deve constituir o núcleo mais importante. Antes de se saber como ensinar é preciso saber-se o que ensinar.
    — A formação contínua visará apenas a actualização dos saberes científicos e/ou pedagógicos adquiridos.
    — Os professores formadores deverão primar pela experiência e contacto com a realidade e não serem aqueles que se oferecem ou que leccionam noutro grau de ensino.

  • As avaliações externas, promovidas pelo Ministério — provas de aferição — terão os seus resultados publicados e debatidos, com conclusões e medidas de remedição aplicadas.

  • Correcção dos sistemas de ensino paralelo — escolas privadas e profissionais — de modo a eliminar as injustiças em relação aos alunos das escolas públicas normais, no acesso à Universidade.
  • A Escola é sociedade

    Escola Secundária de Tavira, 7 de Janeiro de 2004