É ideia difundida e aceite que a massificação do ensino, resultante do 25 de Abril,
provocou um inevitável abaixamento de nível nas nossas escolas.
Esta falsidade, repetida infinitamente, passou a verdade absoluta,
a partir da qual se vem pensando o nosso sistema de ensino de há 30 anos para cá.
O resultado conhece-se: uma degradação contínua e progressiva e um abandono
escolar precoce dos filhos das classes mais desfavorecidas,
que contraria mesmo a tese inicial.
Dois ou três factos bastam para desmontar o argumento da massificação:
1 — Antes do 25 de Abril, já ela se verificava na instrução primária e escolas técnicas,
sem nunca ter chegado à degradação actual.
2 — Esta degradação tem vindo a acentuar-se de ano para ano.
3 — Os alunos oriundos das classes médias, que sempre foram a maioria,
antes e depois do 25 de Abril, conseguiam ainda há 15 - 20 anos
ter aproveitamento escolar sem grandes dificuldades, o que hoje não acontece.
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Onde está, então, o problema?
A sociedade sofreu profundas alterações precisamente nestes últimos 30 anos:
nebulosidade dos projectos para o futuro a médio e longo prazo;
falta de dignificação do trabalho;
apresentação do prazer como valor fundamental;
dicotomia entre o que é proclamado como objectivos e a prática quotidiana;
péssimas condições de vida e de trabalho.
omnipresença da televisão dos "big brother" como veículo de valores.
Que papel pode e deve ter a escola, nestas circunstâncias?
A ideia corrente de que a Escola deve adaptar-se ao meio,
à sociedade, esconde uma falácia:
A Escola é sociedade. É mesmo a única instituição onde, permanentemente,
estão presentes todas as classes, valores, ideologias, interesses,
qualidades e defeitos da sociedade que somos.
Se queremos uma sociedade melhor em geral e um ensino de qualidade em particular,
a Escola é o sítio privilegiado para se proceder à mudança que todos reclamamos.
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O que mudar na escola, no ensino?
Instauração do ensino pré-primário obrigatório para suprir as falhas
socio-culturais do meio familiar.
Caso contrário, a maioria dos alunos estará condenada à frustração porque só
dificilmente fará uma escolarização com êxito.
Elaboração de Programas a pensar nos alunos com selecção dos conteúdos
importantes em cada disciplina, escalonamento de dificuldades e adequação ao
nível etário da criança e do adolescente.
Assim, não haveria razão para a alteração constante dos Programas,
num favor ao negócio das editoras e grupos de profissionais na elaboração de manuais.
Inverter a orientação de métodos e técnicas de ensino centralizados,
apenas, no aluno, que transformaram o professor num mero animador de actividades,
descurando o papel primordial que deve ter como educador e transmissor de conhecimentos.
Retomar a pedagogia que dá importância à memória e à repetição como bases
de uma aprendizagem para toda a vida.
Rever todo o processo de formação de professores:
— A formação científica inicial deve constituir o núcleo mais importante.
Antes de se saber como ensinar é preciso saber-se o que ensinar.
— A formação contínua visará apenas a actualização dos saberes científicos
e/ou pedagógicos adquiridos.
— Os professores formadores deverão primar pela experiência e contacto
com a realidade e não serem aqueles que se oferecem ou que leccionam
noutro grau de ensino.
As avaliações externas, promovidas pelo Ministério — provas de aferição —
terão os seus resultados publicados e debatidos,
com conclusões e medidas de remedição aplicadas.
Correcção dos sistemas de ensino paralelo — escolas privadas e profissionais —
de modo a eliminar as injustiças em relação aos alunos das escolas públicas normais,
no acesso à Universidade.
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A Escola é sociedade
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