Émile Zola ...em La Terre


tradução de (Janeiro de 2004) Maria José Santos

Émile Zola (1840 — 1902) é um dos maiores escritores franceses, não só pela extensão da sua obra mas, sobretudo, pelo humanismo com que olha o mundo e as pessoas.

O seu universo ficcional abrange espaços sociais onde a vida é a mais dura: a mina, a fábrica, o campo. Ele é o cronista do quotidiano do homem que trabalha, das suas misérias e fraquezas.

Não cai, porém, nunca em hipocrisias moralizantes porque percebeu, na experiência vivida, deliberadamente, nestes meios, que o trabalho, em vez da vivência de realização humana que poderia ser, se tornou numa escravidão degradante e inerente à injusta organização social. Disse um dia: "Mudem a sociedade e mudarão o homem".

Este excerto do seu romance La Terre, em que põe a personagem principal a ler uma passagem de "uma história dramatizada do camponês, antes e depois da Revolução", é um relato pessimista, desesperado, que termina, no entanto, com uma frase de esperança: "Aplaca a cólera, homem do campo, (...) pois a hora do teu triunfo em breve soará no mostrador da História..."

Traduzimos, aqui, algumas das suas páginas por entendermos ser um autor a merecer uma releitura. E deixamos uma pergunta: que levará os nossos académicos a remeter para o esquecimento um homem e uma obra tão interventivos e pertinentes no seu tempo como o poderiam ser um século depois?

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Primeiro, foi o problema dos Gauleses livres, reduzidos à escravidão pelos Romanos. Depois, são conquistados pelos Francos, que dos escravos fizeram servos, estabelecendo o feudalismo. E o longo martírio começava, o martírio de Jacques Bonhomme, o trabalhador da terra, explorado, exterminado, através dos séculos.
Enquanto o povo das cidades se revoltava, fundando a comuna (1), obtendo o direito de burguesia, o camponês, isolado, despojado de tudo e de si próprio, só mais tarde conseguiu libertar-se, comprando com o seu dinheiro a liberdade de ser um homem. Mas que liberdade ilusória, a do proprietário oprimido, estrangulado por impostos de sangue e de ruina, com a propriedade constantemente posta em causa, agravada por tantos encargos que quase só lhe deixava as pedras para comer!
Então, um rol de sofrimentos começava, o das obrigações que se abatiam sobre o miserável. Ninguém podia fazer uma lista completa e exacta já que pululavam, vindo simultaneamente do rei, do bispo e do senhor. Três carniceiros devorando o mesmo corpo: o rei tinha o foro (2) e a derrama; o bispo tinha a dízima (3); o senhor tudo impunha, cunhando dinheiro com tudo.
Nada mais pertencia ao camponês, nem a terra, nem a água, nem o fogo, nem mesmo o ar que respirava. Ele tinha que pagar, pagar sempre, pagar pela sua vida, pela sua morte, pelos seus contratos, pelos seus rebanhos, pelos seu comércio, pelo seu prazer. Pagava pela água pluvial dos fossos que desviava para as suas terras, pagava pela poeira dos caminhos que as patas dos carneiros levantavam, no Verão, durante as grandes secas. E aquele que não podia pagar dava o seu corpo e o seu tempo, à mercê da corveia (4) e da derrama, obrigado a lavrar, a ceifar, a colher, a tratar da vinha, a limpar os fossos do castelo, a fazer e manter as estradas. E mais os impostos em géneros; e as banalidades (5) sobre o moinho, o forno, o lagar, onde ficava um quarto das colheitas; e o o dever de vigia e de guarda, pago em dinheiro mesmo depois da demolição das torres de menagem; e a aposentadoria (6) que, à passagem do rei ou do senhor, despojava as cabanas, roubando enxergões e cobertores, expulsando o morador de sua casa, ao ponto de lhe arrancarem portas e janelas se não fugisse suficientemente depressa. Mas o imposto abominável cuja lembrança ressoava ainda, no fundo dos povoados, era a odiosa gabela sobre o sal, com as famílias tarifadas a uma quantidade que deviam comprar obrigatoriamente ao rei. Enfim, toda uma cobrança iníqua cujo arbítrio sublevou e ensanguentou a França.
(...)
Quanto à justiça, à tripla justiça do rei, do bispo e do senhor, essa esquartejava a pobre gente que suava na gleba. Havia o direito consuetudinário, havia o direito escrito e, sobretudo, havia o arbítrio, a lei do mais forte. Nenhuma garantia, nenhum recurso, a espada era toda-poderosa. Mesmo nos séculos seguintes, quando a equidade foi declarada, compraram-se cargos e a justiça foi vendida.
Mas, pior ainda, era o recrutamento de exércitos, esse imposto de sangue que, durante muito tempo, só era aplicado aos filhos dos camponeses, que fugiam para os bosques e eram trazidos de volta, acorrentados, à coronhada, e alistados como se fossem para trabalhos forçados. A subida de posto estava-lhes interdita. Um jovem, filho de família, traficava com um regimento como se se tratasse de uma mercadoria sua, que tivesse pago, pondo os postos inferiores a leilão e empurrando o resto do seu gado humano para a matança.
Vinham, por fim, os direitos de caça, esses direitos a pombal e a coutada que, hoje ainda, mesmo abolidos, deixaram um fermento de ódio no coração dos camponeses. A caça, essa obstinação hereditária, a antiga prerrogativa feudal, que autorizava o senhor a caçar em qualquer lado e que punia com a morte o vilão (7) que tivesse a audácia de caçar nas suas próprias terras. Era o animal livre, o pássaro livre, engaiolados a céu aberto, para o prazer de um só. Eram os campos compartimentados em coutos, que os animais devastavem, sem que fosse permitido aos proprietários abater um só pardal
(...)
O calvário do camponês desenrolava-se. Ele tinha sofrido com tudo, com os homens, com os elementos e com ele próprio. Sob o feudalismo, quando os nobres partiam para o saque, ele era expulso, perseguido, levado como despojo. Cada guerra privada entre senhores arruinava-o quando não o assassinava: queimavam-lhe a cabana, arrasavam-lhe a terra. Mais tarde, as grandes companhias, o pior dos flagelos que vieram desolar os nossos campos, eram bandos de aventureiros a soldo de quem lhes pagava, ora a favor da França, ora contra, marcando a sua passagem a ferro e fogo, deixando atrás de si a terra nua. Se as cidades resistiam graças às suas muralhas, as aldeias eram varridas nesta loucura de violência que, então, soprava ao longo de todo um século. Houve séculos vermelhos, séculos em que os nossos descampados, como se dizia, não deixaram de clamar de dor, com as mulheres violadas, os filhos esmagados, os homens enforcados. Depois, assim que a guerra dava tréguas, bastavam os cobradores de impostos do rei para o contínuo tormento da pobre gente, pois o número e o peso dos impostos não eram nada em comparação com a cobrança extraordinária e brutal da derrama e da gabela sobre o arrendamento, taxas repartidas a bel-prazer da injustiça, exigidas por grupos armados que faziam entrar o dinheiro do fisco como se levassem uma contribuição de guerra. Tanto que quase nenhum deste dinheiro chegava aos cofres do Estado, roubado na estrada, sumindo-se nas mãos larápias para onde passava. E a seguir vinha a fome. A imbecil tirania das leis, imobilizando o comércio, impedindo a livre venda das sementes, determinava de dez em dez anos horríveis penúrias, sob anos de sol muito quente ou de chuvas muito prolongadas que pareciam punições de Deus. Uma tempestade a engrossar os rios, uma Primavera sem água, a mais pequena nuvem, o mais pequeno raio de sol que comprometesse as colheitas, dizimavam milhares de homens: eram os golpes terríveis da própria fome, do encarecimento súbito de todas as coisas, das espantosas misérias, durante as quais as pessoas comiam a erva dos fossos como se fossem animais. E, fatalmente, depois das guerras, depois das penúrias, declaravam-se epidemias, matando aqueles a quem a espada e a fome haviam poupado. Era uma podridão sem fim a renascer da ignorância e da imundície, a peste negra, a Grande-Morte, cujo esqueleto gigante se vê dominar os tempos antigos, ceifando com a sua foice o povo triste e exangue dos campos.
Então, quando sofria de mais, Jacques Bonhomme revoltava-se. Tinha atrás de si séculos de medo e de resignação, as costas calejadas de pancada, o coração tão oprimido que já nem sentia a sua humilhação. Podiam bater-lhe durante muito tempo, privá-lo de alimentos, roubar-lhe tudo, sem que ele saísse da sua prudência, daquele embrutecimento em que lhe passavam pela cabeça coisas confusas que ele próprio ignorava. E isto até uma última injustiça, um último sofrimento, que fazia com ele saltasse, de repente, ao pescoço dos seus senhores como um animal doméstico, demasiadamente batido e enraivecido.
Em cada século rebenta sempre o mesmo desespero, a Jacquerie (8), que arma os camponeses com as suas forquilhas e foices, quando já nada há a esperar senão a morte. Eles foram os Bagaudes cristãos da Gáulia, os Pastoureaux do tempo das cruzadas, mais tarde os Croquants e os Nu-pieds caíndo sobre os nobres e os soldados do rei.
400 anos depois, o grito de dor e de cólera dos Jacques vai atravessar, de novo, os campos devastados, fazendo tremer os senhores no fundo dos castelos. E se eles se zangassem uma vez mais, eles que são a maioria, se reclamassem, enfim, a sua parte? É a antiga visão que galopa, a dos grandes diabos semi-nus, em farrapos, loucos de brutalidade, de desejos, arruinando e exterminando, tal como os arruinaram e exterminaram, violando, por sua vez, as mulheres dos outros!



(1) Comuna — cidade livre do jugo feudal que os próprios burgueses administravam.
(2) Foro — imposto fixo que o possuidor de uma terra pagava ao senhor do domínio.
(3) Dízima — imposto de natureza eclesiástica que consistia numa décima parte dos rendimentos.
(4) Corveia — serviços gratuitos e obrigatórios, prestado pelos servos e vilãos nas terras sob exploração directa do senhor.
(5) Banalidades — impostos sobre a utilização dos instrumentos de produção, que eram monopólio do senhor.
(6) Aposentadoria — dever de alojar as comitivas senhoriais, incluindo os cavalos, cães e aves de caça.
(7) Vilão — homem livre, mas submetido a impostos e obrigações como a corveia.
(8) Jacquerie — revolta dos camponeses contra os nobres.